terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

As igrejas e a evasão do carnaval: a liberdade, o fundamentalismo e o cinismo


Uma resposta ao artigo publicado no Jornal O Globo em 03/02/13, intitulado “as velhas baianas somem da passarela“.
A cultura dos povos são mutáveis por diversas razões, sejam elas pelo incremento de novas ideias, modificações das crenças, pelos comportamentos tornarem-se anacrônicos, pela evolução social ou por qualquer outra razão que a sociedade permitir. Não há que se falar em cultura imposta. Cada grupo, inclusive, é o responsável pela manutenção dos seus elos e traços culturais.
As religiões possuem uma dialética bem democrática também. As pessoas escolhem mudar de religião, ou manterem-se nelas, por razões muito íntimas.  Normalmente buscam nos templos o bem estar espiritual, buscam encontrar Deus. Não acredito que a maioria das pessoas escolham religiões por questões culturais, mas por necessidades espirituais. As pessoas não são fervorosas de suas religiões apenas por imposição familiar ou social. O fervor está associado a fé, à certeza que a pessoa tem e aos resultados que obtém de suas práticas, especialmente em um país em que a liberdade religiosa é garantida.
Há pessoas que defendem que os evangélicos estão causando prejuízos aos quadros do carnaval. Isto porque pessoas de religiões que participam ativamente do carnaval estariam convertendo-se ao evangelho e, com isso, esvaziando setores de escolas de samba e outros. Não faz sentido querer cultivar pessoas em uma ou outra religião para atender interesses econômicos difusos imersos no carnaval. As pessoas não escolherão permanecer ou mudar de uma religião por conta do carnaval ou por qualquer outra festa popular. As pessoas mudam de religião, e nela se mantém, se encontrar conforto espiritual para si e para a sua família.
Por outro lado, nenhum grupo religioso, de sã consciência, pregaria a sua mensagem apenas para esvaziar uma festa popular ou outra religião. As pessoas pregam as mensagens que creem, e, a partir daí, as outras, escolhem se converter, ou não. Depois de convertida, uma pessoa pode, inclusive, se reconverter à religião anterior. A Liberdade Religiosa é um Direito Fundamental previsto na Constituição da República do Brasil e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ser de qualquer religião ou de nenhuma delas é uma escolha personalíssima.
Os religiosos que acreditam no que pregam anunciam às outras pessoas, especialmente aos que sofrem, como encontram conforto para seus sofrimentos, em suas dúvidas, crises e angústias. Não tem como privar uma pessoa de compartilhar este conforto a outra. O carnaval ocorre uma vez por ano e, entre um carnaval e outro, as pessoas têm muitas necessidades a serem supridas.
Por exemplo, as pessoas perdem parentes e amigos que dirigem embriagados, ou mesmo algumas mulheres descobrem que seus maridos envolveram-se com outras mulheres e as engravidaram, ou pessoas descobrem que foram contaminadas com o vírus da aids durante as liberalidades que algumas festas permitem, outras sofrem ou praticam violência. Estas pessoas, depois do carnaval ou não, saem em busca de auxílio, de amparo e de apoio. Quando a festa acaba e o sofrimento vem, a estrutura de exploração econômica-sexual-cultural-filosófica-religiosa sai e deixa os “foliões” ao relento.
O carnaval é uma época propícia para diversas tragédias sociais. Por exemplo, enquanto alguns ensinam: “use camisinha”, o evangelho ensina: “respeita a sua família”. O primeiro conselho ataca o efeito, o segundo ataca a causa. Nesse cenário sociológico-econômico-religioso pessoas também sentem-se oprimidas por espíritos malignos que as atormentam, humilham, exigem coisas terríveis delas. Essas pessoas, em nome fundamentalismo histórico-cultural-religioso-econômico-antropológico-artístico, ou qualquer outro, não poderão buscar liberdade do sofrimento? Terão que, em nome do carnaval, manterem-se escravas do seu   sofrimento para alegria de alguns? Trata-se de um objeto de diversão e não de um ser humano?
Evangélicos não dificultam a ocorrência do carnaval, mas ensinam que as pessoas não devem: embriagar-se, prostituir-se, agredir-se, expor sua nudez publicamente, porque o nosso corpo é templo do Espírito Santo. Isso nada tem a ver com o carnaval. Então as pessoas deveriam por um decreto moral-intelectual-fundamentalista manter-se na ética de agradar o que é bom para quem paga? Destruir-se em prol da diversão alheia?
O ano das pessoas, pobres ou ricas, tem 365 dias e todos querem ser felizes. Os que defendem tudo que assistem no carnaval querem ver suas filhas e mulheres despidas rebolando para o mundo em troca de fama de alguns minutos? Querem escravos e escravas que se mantenham em sua “cultura” para atender os caprichos do glamouroso carnaval dos grandes camarins e da alta classe social? Se a coisa é tão boa assim, porque estes aguerridos defensores das práticas do carnaval não convocam seus familiares e amigos para povoarem as brechas deixadas por aquelas pessoas que optam por se converter ao evangelho e perdem o prazer pelas práticas anteriores? Querem manter o status quo do carnaval com o sacrifício alheio?
Se dizer às pessoas que não se embriaguem, não exponham seus corpos publicamente, não sejam objeto de luxúria, não sejam escravizadas por espíritos, por pessoas e por nada é fundamentalismo religioso, querer convencer homens e mulheres a exporem-se pessoalmente, e às suas famílias, e, depois da festa, curtirem, no anonimato, as suas dores, humilhações, doenças, destruição de suas reputações e de suas famílias é uma forma de fundamentalismo cínico e egoísta, que anula qualquer tipo de racionalidade cultural, religiosa ou filosófica.
Se as pessoas encontrarem paz, conforto, segurança, respeito, esperança e bem estar para si e para as suas famílias no carnaval, ou em qualquer religião, as igrejas que pregam o evangelho estarão em risco.  Do contrário, o fluxo vai continuar o mesmo e a cada dia faltarão mais quadros, e teremos nas igrejas mais pessoas recuperadas de seus sofrimentos e opressões. Os proselitistas da festa da carne devem arrumar argumentos melhores para convencer as pessoas a submeterem-se aos riscos carnavalescos, juntamente com as suas famílias, pois, do contrário, as pessoas farão a escolha mais racional e segura para si. Em uma democracia há que se celebrar a liberdade de escolha: se as pessoas deixam de lado os tamborins do carnaval para tocarem a trombeta em Sião, haveremos de convir que em Sião estão encontrando conforto, paz, esperança e salvação e, a partir daí, proclamarão como o Rei Davi: “Cantai louvores ao Senhor, que habita em Sião; anunciai entre os povos os seus feitos”. Salmos 9:11. Com tantas pessoas proclamando os feitos do Senhor Jesus em suas vidas, não há como outras também não encontrarem o Caminho.

Por 

Pastor evangélico da igreja Assembleia de Deus • Doutor em Economia pela UFF • Mestre em Engenharia Nuclear pelo IME • Pós-graduado em Auditoria e Perícia Contábil pela UNESA • Engenheiro de Fortificação e Construção (civil) pelo IME • Bacharel em Direito pela UFRJ (aprovado na prova da OAB-RJ) • Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN)
Fonte: "As opiniões ditas pelos colunistas são de inteira e única responsabilidade dos mesmos, as mesmas não representam a opinião do Gospel+ e demais colaboradores."